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Plataforma que combina games e sensores ajuda crianças com neurodiversidade e ansiedade
Sistema monitora o paciente enquanto joga; quando se acalma e respira adequadamente, ganha recompensas no jogo
Publicado em 09/02/2026 08:52
Novidades & Tecnologias

A startup Self Intelligence for Life, empresa de São José dos Campos fundada em 2022, criou uma plataforma que combina jogos, sensores biométricos e técnicas terapêuticas para ensinar crianças com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) a controlar suas emoções. O projeto foi apoiado pelo programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, em parceria com o Sebrae SP.

 

O sistema monitora o paciente enquanto ele joga. Quando se acalma e respira adequadamente, ganha recompensas no jogo. “A plataforma monitora a criança em tempo real por meio de sensores”, explica Gabriella Faria, engenheira biomédica que integra a equipe do projeto e CEO da startup. “O jogo mede como está se sentindo e dá benefícios quando consegue se acalmar e fazer a autorregulação.”

 

Durante o mestrado em engenharia biomédica, Faria participava de um grupo que estudava técnicas de respiração e métodos não farmacológicos de redução de estresse, coordenado pelas pesquisadoras Karina Rabello Casali e Tatiana Cunha com apoio técnico e científico dos engenheiros Matheus Cardoso Moraes e Henrique Alves de Amorim.

 

Uma das colaboradoras, a neuropsicopedagoga especialista em reabilitação cognitiva Renata Casali, relatou uma dificuldade frequente: a falta de ferramentas para acalmar as crianças durante as sessões, conta Faria. “Às vezes ela levava 15 a 20 minutos nesse processo antes da atividade terapêutica, o que compromete o tempo e a efetividade da intervenção.”

 

Embora tenha sido desenvolvida para TDAH, a plataforma atende também crianças com transtorno do espectro autista (TEA) e sintomas de ansiedade. O design considera as especificidades desse público: sons, cores e estímulos foram pensados para crianças com maior sensibilidade sensorial.

 

Dados do Ministério da Saúde revelam que os atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) por transtornos de ansiedade em crianças de 10 a 14 anos aumentaram mais de 1.300% nos últimos dez anos: foram de 1.850 registros em 2014 para mais de 24.300 em 2024. Paralelamente, o número de matrículas de estudantes com TEA na educação básica cresceu 44,4% entre 2023 e 2024 e chegou a 918.877 alunos, segundo o Censo Escolar.

 

O sistema da Self Intelligence for Life é composto por sensores biométricos, aplicativo com jogos e plataforma de gestão para terapeutas. Os sensores – disponíveis em três formatos: cinta torácica, braçadeira e clipe de orelha – monitoram a variabilidade da frequência cardíaca, um indicador validado para medir níveis de estresse. A tecnologia é semelhante à dos sensores presentes em smartwatches, mas processada com métricas específicas.

 

A plataforma tem atualmente oito jogos de complexidade variada. Quando a criança veste o sensor e inicia o jogo, a plataforma passa a “entender” seu estado emocional em tempo real. Os jogos incentivam a respiração controlada – uma técnica não farmacológica estudada como alternativa ou complemento a tratamentos tradicionais para TDAH e ansiedade.

 

Em um deles, a criança respira com uma baleia para aprender o padrão respiratório. Outro jogo, considerado o mais desafiador da plataforma, tem um caranguejo que precisa organizar objetos na ordem correta. “É superdifícil porque tem de respirar, colocar os objetos no lugar e na ordem corretos enquanto o vento leva o lixo embora. E não adianta ficar nervoso”, explica Faria. Indicado para crianças e adolescentes, o desafio exige que o jogador mantenha a calma e respire corretamente mesmo sob pressão. Cada jogo dura cerca de três minutos, tempo que já permite ter resultados.

 

O terapeuta tem papel fundamental no processo: planeja as sessões, escolhe os jogos adequados e apresenta o sensor de forma lúdica. “Ele fala para a criança que ela vai ouvir o próprio coração, que a baleia precisa de ajuda para se acalmar e por aí vai”, conta a pesquisadora.

 

A startup criou uma trilha que começa com jogos mais simples para crianças com TEA (que podem se frustrar com determinados desafios) e mais estimulantes para quem tem TDAH (que podem precisar disso para manter o foco).

 

Adicionalmente, a empresa se preocupa com o uso consciente de telas por crianças. A plataforma deve funcionar como exercício físico: sessões curtas e regulares trazem melhores resultados do que o uso prolongado. A recomendação é de até três sessões diárias de três minutos em casa – apenas nove minutos por dia – e, no consultório, geralmente no início e no fim do encontro. “Recomendamos o uso consciente a partir da avaliação do terapeuta”, enfatiza Faria. O uso é indicado exclusivamente durante o período de acompanhamento clínico, não de forma autônoma pela família sem supervisão profissional.

 

A cada sessão, o terapeuta pode obter relatórios detalhados e, assim, acompanhar métricas como sinais do sensor, tempo de jogo e desempenho. Os relatórios podem ser compartilhados com os pais para mostrar a evolução da criança.

 

Outros jogos devem ser lançados periodicamente para expandir as habilidades disponíveis. Já estão em desenvolvimento opções voltadas à fala, para crianças com dificuldade fonética, e com o uso de inteligência artificial, para personalização mais avançada. Está nos planos da startup, ainda, a expansão para outras faixas etárias. “Temos no planejamento uma versão não tão infantil, para atender outros grupos”, destaca Faria.

 

(Foto: Agência Brasil)

Fonte: Agência FAPESP

 

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